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LINHA DE TERRA

Exposição - convite
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Fotos exposição : Wilton Montenegro

Fotos processo e montagem: Clarisse Tarran

A POTÊNCIA DAS IMAGENS

“O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, costados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.”

 

João Cabral de Melo Neto in “Os três mal-amados”, 1943

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Aqui não há espaço para sutilezas, indecisões, delicadezas, sussurros. O gesto criador de Mario Fraga é incisivo, dramático, viril e decidido. Trata-se de um artista das obras de grandes dimensões, da monumentalidade, do espaço épico e heroico, da arte como palco da conquista e da vitória. Não importa o suporte, a técnica, tudo aqui conspira para a concretude da Arte no espaço generoso, na amplidão das suas formas e volumes, na elaboração de uma eloquência discursiva que captura o nosso olhar e nos remete a aventuras ancestrais, batalhas históricas, embate permanente do Ser Humano com as suas várias paisagens, seus lugares, seus territórios.

A obra de Mario Fraga somente se concretiza no espaço para o qual foi pensada, projetada e criada. Fiel à sua vocação arquitetônica, o artista é o ser que povoa o vazio, que ocupa o espaço, que dialoga com a geografia que nos circunda e que determina a essência substantiva da obra de arte. Antes de ser desenho, pintura, escultura, a obra de Fraga é isso: ocupação. Ela se propõe a esse estranho diálogo entre o que determinante “É” e aquilo que ocasionalmente “ESTÁ”. Por isso, salve a língua portuguesa que consegue diferenciar o permanente e o provisório, a “condição” e a “situação”. O artista concretiza essa dialética através de matérias densas, de substâncias que se aderem à epiderme do suporte como cicatrizes, marcas e incisões.

Elas incorporam o informalismo, o simbólico, o real e a metáfora na construção de uma obra madura, máscula e completa.

 

Na maioria dos casos, ao depararmos com a obra de um artista acabamos por estabelecer uma proximidade com outros artistas que conhecemos através da identificação estética. Nesse caso específico, curiosamente associei o trabalho de Mario Fraga ao de Celeida Tostes: porém, se em ambos a natureza e a organicidade são instrumentos iniciais da ação artística, chamou-me a atenção as diferenças evidentes entre os dois. Em Celeida a essência da arte se estrutura através da sensibilidade e do olhar feminino, em Fraga essa mesma essência artística incorpora, na dicotomia do gênero, o papel do masculino, do viajante, do conquistador. Por isso a sua obra se projeta e se realiza pelo externo; mais que à filosofia e à psicologia, ela encontra refúgio na antropologia e na geografia.

 

Portanto, na paisagem da arte contemporânea a produção de Mário Fraga invade corações e mentes como um rio caudaloso. Com terras, pigmentos, betumes, símbolos, papéis, sedimentos e sentimentos o artista constrói a sua paisagem. Como em grandes artistas como Tapiés e Picasso, o volume é o resultado da potência do gesto e do vigor criativo. Trata-se de uma produção genuína, resultado da inteligência e da sensibilidade de um artista maduro que enfrenta o espaço com arrojo projetando as suas pinturas, desenhos e objetos num tenso e preciso equilíbrio entre a força expressiva da matéria e a clareza das formas e volumes.

 

Marcus de Lontra Costa

 

Rio de Janeiro, 2012 , para a exposição “LINHA DE TERRA” - Mario Fraga

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