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IN VITRO

por Mario Fraga

Parecem-me importantes algumas lembranças que clareiam o caminho: no início dos anos 60, quando ainda jovem, manifestou-se em mim o interesse pela pintura. Ouvi pela primeira vez na voz amiga de Clarival Prado Valladares a questão que hoje é resposta para estes mais de 50 anos dedicados à Arte -“Questionar a espacialidade como fundamento estético. Não apenas como suporte do objeto, mas integrado a este, fazendo uma só coisa indivisível.” Em 1970, a realização de um projeto com propostas ambientais (labirinto de espelhos) e sensoriais, frustou-se pela falta de materiais programados. Na exposição em Roma, 1980, havia uma tela azul que mostrava sob fundo infinito um planeta dilacerado, tendo em primeiro plano uma janela de vidro estilhaçado. A exposição “Eclipse”, que em 1988 encerrou as atividades da “Petite Galerie” no Rio de Janeiro, era composta de 12 pinturas aplicadas sobre vidro plano, que, suspensas por cabos de aço, agiam como móbiles de duas faces, interferindo espontaneamente no espaço da galeria. Que fazer agora, quando o plano da pintura passou a ser elemento de construção espacial? Resgatar a Arte na Arquitetura tornou-se uma meta.

De uma conversa com o grande arquiteto Sergio Bernardes nasceu a idéia de pesquisar os vidros laminados. Foram feitos os primeiros contatos com a BLINDEX em São Paulo, e começaram as experiências que colocavam questões técnicas precisas: quais os pigmentos, médios, redutores e diluidores a utilizar? Quais as condições ideais de aplicação e secagem? Resistiriam as substâncias empregadas às altas temperaturas das calandras e autoclaves? Como reagiriam ao impacto? E à luz? O projeto exigia muito trabalho e o total apoio da BLINDEX, cujo presidenteAntonio Pedro Coutinho Lins, manifestava interesse pela pesquisa.

Material de alto peso específico e leveza visual, o vidro, em forma cristalizada convida à geometria. 

A relação entre forma e cor, sem referência a objetos específicos, é como um tipo de música, 

onde luminosidade e transparência são questões principais desta linguagem trabalhada e vivida nos limites da visibilidade.

O procedimento visa à integração do quadro ao tridimensional, sua interação com o ambiente. A arquitetura é a mais antiga das formas de arte e é importante perceber sua influência em qualquer tentativa de compreender a relação entre as massas e a obra de arte.

“Todo meio de expressão conhece épocas críticas em que aspira a efeitos que só podem se concretizar num novo estágio técnico, isto é, numa nova forma de arte.”

Agora, como antigamente, os projetos arquitetônicos definem necessidades que os artistas devem preencher. A pintura vitral, arquitetural por excelência, deve renascer potencialmente rica em formas, cores e imaginário. 

A obra de arte, quando segue seu próprio caminho, assemelha-se à natureza, contém algo de regular e unificador crescendo de dentro pra fora. Assim como o cristal, que em sua necessidade atemporal, com suas dobras e erosões magicamente paralisa o tempo. Abstrato? Concreto? Objetivo? Não objetivo? É uma promessa de ordem.

A presença do número é visível e se manifesta em forma de séries, combinações, adição e sequência. Este elemento combinativo e serial penetra na produção artística tornando-a mais rigorosa.

A aproximação com os procedimentos industriais permite ao artista possibilidades de ampliar e aprofundar sua interação com os diversos segmentos da sociedade. O projeto IN VITRO pretende abrir uma via para explorar a relação entre arte, indústria e arquitetura.

Mario Fraga - 1991

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IN VITRO

A OBRA

A obra provoca a interatividade, envolvendo o espectador que a ela se integra em seu jogo de imagens. In Vitro tem como principal fundamento, a luz, sua decomposição cromática, seus reflexos, transparências e superposições no interior dos vidros. A verticalidade da sequência das lâminas cria ritmo, movimento e espelha cor, luminosidade, variando suas escalas em cores frias pela manhã e quentes à noite.

 

“O conjunto desenha no espaço uma perspectiva sinuosa de pinturas justapostas. O trabalho propõe um olhar espacial integrando à arquitetura do lugar, uma gama de transparências, reflexos e superposição de cores, nuances que criam atmosferas nos ambientes de passagem, onde o ir e vir das pessoas interage com a cinética da obra, transformando no espaço e no tempo, cores e formas”, conta o artista.

 

Obras de Mario Fraga, com a mesma técnica de vidros laminados pintados à mão, foram expostas em outras ocasiões, como em 1991, no MAM Rio, e em 1992, no MASP. Instalações permanentes encontram-se em residências desde 1993, no Rio, em Salvador e em São Paulo. Há obras em locais públicos, como no hotel AFPESP, no Guarujá, na Galeria Fórum de Ipanema, no Rio de Janeiro, e, desde 2002, na Estação Anhangabaú, na capital paulista, quando o artista fez parte do projeto Arte no Metrô.

Há 30 anos Mario Fraga criou In Vitro, técnica de pintura no interior de vidros laminados, a partir de pesquisa desenvolvida com a Pilkington-Brasil (Blindex),unindo arte e tecnologia.

A obra atual, denominada In Vitro Rio - Mario Fraga, é composta por 40 módulos de vidro laminado pintados à mão pelo artista, com formatos de 3,20 metros de comprimento e 1,20 metros de largura.

In Vitro Rio Mario Fraga será exposta e posteriormente doada  ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuindo para que o público esteja em contato direto com a obra de arte. O Jardim Botânico do  Rio de Janeiro, é reconhecido como patrimônio nacional pelo Iphan e reserva da biosfera da Mata Atlântica pela Unesco, e é  considerado um dos mais importantes centros de pesquisa mundiais nas áreas de botânica e conservação da biodiversidade.

 

A presença de uma obra de arte em espaço público, traduz-se em aspectos sensoriais, onde o exercício do imaginário contribui para melhorar a relação das pessoas com a cidade. A exposição da mesma será no Arboreto (área que engloba os canteiros)  do Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 2019.

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